segunda-feira, 2 de junho de 2008

Por que é que se faz uma marcha e um arraial no dia 28 de Junho?

Encontrei, via fórum da rede ex-aequo, um post a divulgar o fresquissímo vídeo promocional da marcha e arraial 2008. É original, giro, desencavacado (perceberam a piada?), e a mensagem não poderia ser mais clara e directa.



Durante umas visitas ao dito fórum e após falar com alguns amigos apercebi-me que ainda há muitas pessoas que não conhecem o verdadeiro motivo pelo qual se celebra este dia. Era suposto todos os gays saberem? Uma mulher tem de saber tudo sobre a história dos movimentos de emancipação feminina só por ser mulher? Sendo seres humanos temos de saber tudo sobre a história da humanidade? Óbvio que não. Contudo, há coisas que convém saber. A Condessa escreveu aqui que não colocaria links nem mencionaria o porquê da marcha porque bastaria aos interessados pesquisar a combinação de termos "Stonewall" e "1969". O meu lado x-pression gosta mais de contar histórias e vai tentar contá-la, de forma resumida, agora:

Em 1969 aconteceu uma coisa à qual hoje se dá o nome de “Revolta de Stonewall” (Stonewall Inn é o nome de um bar gay em Nova Iorque). Para compreendermos melhor a história vamos só recuar um bocadinho para contextualizar a cena.
Estamos na América, nos anos 60. O que é que acontecia no mundo e o que é que as personagens desta história haviam vivido? O pessoal ainda está a recuperar da grande estafa que foi a II guerra mundial (ela terminara pouco mais de 20 anos antes, portanto os intervenientes da nossa história terão vivido, eles e os seus pais, ou só os pais, os horrores de algo que, felizmente, a maioria de nós desconhece). A guerra agora desenrolava-se no Vietnam, começaram a surgir movimentos contra a guerra, as pessoas sentem necessidade de se associar a causas.
Ser gay não devia ser muito fácil nesta altura, eles não tinham Internet, as poucas associações que existiam não gozavam da liberdade que as nossas hoje têm, e os pontos de encontro entre gays (se não fossem figuras conhecidas como pensadores, escritores e demais crème de la crème) eram assim mais nas ruas e em bares mais ou menos alternativos (alguns tinham uma salinha mais reservada em que pessoas do mesmo sexo podiam dançar juntas ou até curtir. Se aparecesse alguém cuja presença fosse estranha ao bar – podia ser um policia à paisana – o pessoal do bar accionava um botãozinho que acendia uma luz, como forma de aviso para que os pares se separassem).

Não nos esqueçamos que nesta altura ser gay era sinónimo de ser-se doente (a homossexualidade apenas deixou de ser considerada, pela comunidade científica, uma doença em 1973
e atenção que isto ainda hoje não é unânime porque há pessoas que ainda julgam que sim, trata-se, portanto, de uma semi-conquista). Como os gays eram todos uns doentes mentais, era proibido vender-lhes bebidas alcoólicas. Por este motivo, a policia tinha total autonomia para entrar nos bares e prender quem quisesse (consta que os alvos preferenciais eram as pessoas que trajavam roupas conotadas com o sexo oposto, vulgo travestidos, homens ou mulheres). Os gays, resignados, não ofereciam muita resistência de tão habituados que estavam às rusgas policiais e alguns até diziam: “É assim porque é assim. Sempre foi e sempre será.” (já ouviram muita gente dizer barbaridades destas não já? Não lhes dêem ouvidos, são os comodistas, preguiçosos, vencidos da vida, que pretendem justificar a sua inacção com a inacção dos outros e só servem para promover este cancro que é o individualismo).
A injustiça era normal e ainda hoje nos parece normal, tão poucas vezes nos solidarizamos com os oprimidos, os elos fracos porque, muitas vezes, também nós nos percebemos fracos. Só um forte tem a coragem de levantar a voz contra uma injustiça, um crime, um roubo…
As pessoas vêem alguém a ser agredido e não têm a coragem, sequer, de telefonar para o 112? Assiste-se a um roubo e não se denuncia? Sabe-se de um crime e calamo-nos? O mundo às vezes é estranho, não é?
Felizmente houve fortes e ainda os há.
Esta história é precisamente sobre eles, os fortes.
Os anos 60 foram uns anos muito à frente. A segunda vaga feminista estava aí em peso (Beauvoir – este ano comemora-se o centenário do nascimento desta senhora – publicara a bíblia feminista “O segundo sexo” nem havia 10 anos) e punha em causa o papel da mulher na sociedade, questionava a ordem patriarcal e os modelos masculino/feminino (cortes de cabelo, soutiens, biquinis, roupa, maquilhagem, tudo reformulado), o movimento estudantil ganhava peso porque associava-se a causas cívicas e naquela altura a contestação era grande por causa da guerra do Vietnam, comunidades hippies propagavam paz e amor, liberdade de espírito, mente aberta e sexo livre. Em Paris, um ano antes de Stonewall, o Maio de 68 viera abrir portas a novos movimentos sociais (e sexuais) e as pessoas proclamavam, cada vez mais abertamente, por justiça e igualdade. Não esquecer também que Alfred Kinsey publicara por esta altura o seu famoso estudo sobre a sexualidade dos americanos e concluíra que cerca de 25% dos americanos teria tido algum tipo de experiência com alguém do mesmo sexo.
Devia ser mais ou menos isto que andava nas cabeças dos intervenientes desta história (os frequentadores do bar Stonewall Inn). Um dia, estas pessoas, já cansadas de levar porrada, de serem enxovalhadas e presas decidiram pregar uma partida à polícia.
Judy Garland (um ícone para muitos dos gays daquela época – tenho pena de não me lembrar do Feiticeiro de Oz, mas consta que neste filme há uma cena célebre em que ela viaja com os seus amiguinhos – um bocado “abichanados” – over the rainbow) falecera dois ou três dias antes em Londres e o seu corpo fora transladado para a sua terra Natal, sendo sepultado em Nova Iorque, a uns poucos km do dito bar. Muitos gays assistiram ao seu funeral. O bar Stonewall Inn fica a pouco mais de meia hora, de carro, a partir do cemitério onde ela fora sepultada.
Imagino que os gays que lá estavam se sentissem profundamente tristes com a morte da sua diva (imaginem o funeral da madonna, talvez o ícone gay mais emblemático de todos os tempos) e a última coisa que lhes estaria a apetecer seria levar um enxerto de porrada neste dia de luto.
Mas a polícia não dá tréguas e aparece, contudo, desta vez os policias são surpreendidos pois os gays mostram resistência (parece que os historiadores não são unânimes, alguns afirmam que houve mortes outros não). Os que não estavam a ser encaminhados para os veículos policiais solidarizaram-se com os amigos que estavam a ser transportados. Começam a chover garrafas, tijolos e pedras na direcção dos policias. As pessoas que estavam a assistir na rua juntam-se aos gays (isto havia de ter sido bonito de se ver) e os policias refugiam-se dentro do próprio bar, que é parcialmente incendiado. Os policias conseguem sair e apesar da contestação ainda levam 13 pessoas para a cadeia (devem ter-lhes feito coisas bonitas). No dia seguinte, nova rusga, desta vez os nossos amigos gays estavam mais organizados e a multidão na rua mais solidária ainda. Os policias ainda carregaram sobre alguns dos mainfestantes mas acabaram por se ir embora. A solidaridade dos habitantes locais terá sido fundamental para que o Presidente da Câmara decidisse acabar com a violência policial.
Rapidamente a coisa se espalhou aqui pela Europa. Seguindo o exemplo dos amigos americanos, os gays europeus também começaram a exigir respeito. E em Portugal? Infelizmente ainda não há muita coisa documentada mas há histórias deliciosas se tiverem a oportunidade de falar com gays mais velhos. Só para se ter uma ideia, não nos podemos esquecer que até 1974 se vivia numa ditadura e tudo o que fosse “contra-cultura” era morto à nascença. Penso que a discoteca gay mais antiga (quiçá a primeira assumidamente gay, corrijam-me se estiver enganada) tem apenas 27 anos (o Trumps). Devia ser pavoroso um gay assumir-se em Portugal nesta altura, hein?
Repare-se que ainda hoje há pessoas que são enxovalhadas, espancadas, presas e mortas apenas por gostarem de pessoas do mesmo sexo. E se isto não acontece (pelo menos pela mão de instituições governamentais) em Portugal, solidarizemo-nos com aqueles que noutros países sofrem isto na pele.
Ninguém nos deu nada de bandeja, se hoje temos coisas (direitos) foi porque alguém teve a ousadia de arriscar a sua pele (e muitas vezes pagar com o seu sangue). E nós? Vamos dar alguma coisa aos próximos ou vamos deixar que nos arranquem tudo o que outros nos trouxeram?
A marcha gay, bem como o arraial, celebra este “marco” na história LGBT em que os gays deixam de ser, pelo menos institucionalmente, perseguidos, torturados, presos, na maioria dos países ocidentais. É óbvio que isto não mudou tudo num dia nem ocorreu ao mesmo tempo em todas as cidades, mas o dia 28 de 1969 marca, simbolicamente, os acontecimentos que levaram alguém com poder de decisão (O Presidente da Câmara) a marcar uma posição e a impedir que estes abusos ocorressem institucionalmente.
A palavra Pride (Orgulho) incomoda porque vem traduzida do Inglês. Pride não tem uma conotação negativa, como tem em Português (o orgulho até é um dos 7 pecados). O nosso problema é apenas com a tradução (o valor semântico de “orgulho” difere do de “pride”).
É óbvio que é ridículo uma pessoa sentir-se orgulhosa por ser gay (tal como é ridículo ter orgulho em ser branca). Mas a pessoa pode orgulhar-se de si mesma por ter conseguido dar um passo importante (como é o comming out, a saída do armário) apesar das adversidades.


x-pressiongirl

4 comentários:

rosa que fuma disse...

apre gin tónico!

é a primeira vez na vida que penso no funeral da madonna...wuhuhuhuhuh....

coisa mai gó-zumbi!

rosa que fuma disse...

:)

(eu sei que sou uma chatinha confucionista); a palavra pride tem sim problemas em si (flasha-me na cabeça o "birth of a nation" essa bela apoteose do cinema e do kkk), e isto que ainda é recente http://www.meiosepublicidade.pt/2007/11/26/tagus-suspende-orgulho-hetero/
a manifestação dos neo-retro com o mesmo slogan etc e muitas,

MAS bolas. Acho q AINDA NÃO chegámos (lutámos até) ao momento de dispensar o folclore, o que outros fizeram antes. (se bem que me agradava uma coisa mais sanjoanina tipo armarios pra fogueira e alcachofra e vinho verde)

Anónimo disse...

Já tinha lido isto no forum da rede exequo e tb curti o video mas e pena o som tar mau e nao dar pa perceber o k eles dizem.

x-pressiongirl disse...

Talvez tenha sido exagerado comparar a Madonna com a Judy Garland enquanto ícone da gayada mundial. A globalização dá uma certa ajudinha à Madonna. ;-)
A coisa san joanina era capaz de ter mais piada, mas o movimento ainda não está preparado para brincar com coisas sérias.
Pois é anónim@, o som podia estar melhor, mas acho que a ideia do vídeo está simples e engraçada.

x-pressiongirl