segunda-feira, 23 de junho de 2008

Por que é que os gays não devem reivindicar casamento

Durante a semana que passou, quase toda a blogaysfera referiu o casamento das duas senhoras que ao fim de 51 anos de convivência e luta conjunta se casaram. É bonito, mas não me satisfaz.

Têm sido semanas felizes para a comunidade gay. A Noruega juntou-se aos países que permitem o casamento entre pessoas do mesmo sexo e, por cá, foi publicado este livro.

Compreendo que os gays sintam necessidade de se afirmar como iguais perante uma sociedade que contempla o casamento (ainda que só meta os pés na igreja em eventos de maior calibre) como única forma de validar uma relação afectiva. Mas a coisa é perversa... vou mostrar porquê.
Os gays não devem reivindicar o casamento, da mesma forma que os heterossexuais deviam lutar por aboli-lo.
O casamento sempre foi a instituição que mais desigualdade promoveu entre homens e mulheres, entre homo e heterossexuais. É paradoxal vermos a comunidade gay a pedir igualdade abrigando-se numa instituição que sempre promoveu, promove e continuará a promover desigualdade entre casados, viúvos, divorciados e solteiros.
O casamento (matrimónio) surge como necessidade patriarcal de carimbar a propriedade de um homem (património).
Desde os casamentos dinásticos às uniões de facto, as pessoas fazem-no por motivos políticos e económicos. Amor? O amor faz-se no dia-dia com todos os seres (humanos ou não), quando se dá um abraço sincero a um amigo, quando se cumprimenta cordialmente um vizinho ou quando se dá alimento a um animal de rua faminto, e isto, normalmente, fazêmo-lo vestidos. O que fazemos nús, é sexo! Por mais doce e ternurento que seja, continuará a ser sexo.
Assisti ao debate promovido pela Ilga e APF, no fórum Lisboa, a propósito do dia Mundial de luta contra a homofobia (Pamplona Corte-Real, jurista e co-autor do livro mencionado estava entre o público e teceu algumas considerações interessantes sobre este assunto) e recordo-me de uma abordagem particularmente pertinente a propósito de casamento.
O filme exibido, "If these walls could talk", conta a história de um casal de lésbicas idosas que partilha durante grande parte das suas vidas, uma casa (que, naturalmente, só está no nome de uma delas) paga por ambas. Todos os objectos e cada canto da casa contêm uma história que lhes é comum. Vivem como amigas, perante a sociedade. Uma delas morre (a que tinha a casa em nome dela) e o sobrinho, ansioso por herdar a casa, pressiona psicologicamente a "amiga" da tia para que abandone o lar. Ela não tem como provar que metade da casa é dela, porque apesar das prestações ao banco serem pagas conjuntamente, não tendo o estatudo de casal (a raíz desta palavra é "casa", precisamente) ela não tem direito a NADA.

Quando o debate se estendeu ao público, houve uma amiga italiana que abordou o assunto, de modo um pouco agressivo (e só depois é que eu percebi o motivo da sua irritação). Não creio que ela tenha sido bem interpretada. Aliás, eu mesma, inicialmente não a compreendi, não pela diferença linguística mas, pelo alcance da sua exposição. Só depois, quando o microfone rodou para outras mãos é que digeri a mensagem made in Itália. Ela referia-se à propriedade privada e criticava o casamento enquanto dispositivo gerador de diferenças e disse: "Eu quero que me reconheçam como indivíduo!". Nunca tinha pensado bem nisso, mas ela estava coberta de razão, antes de os gays serem discriminados, são-no tod@s @s solteir@s.
Por que é que uma pessoa casada tem vantagens nos impostos? Eu quero ter as mesmas vantagens sendo solteira. E, veja-se, nem todas as pessoas são solteiras por opção. Se eu nunca encontrar ninguém que me ache interessante?

Nunca compreendi toda a simbologia por detrás disto. Alianças no dedinho anelar, qual mijadinha de gato a marcar território quando se tem uma aliança igual. Papéis assinados perante um padre e uma multidão de convidados que só pensam em coisas rídiculas "Ai, estes sapatos apertam-me imenso", "Por que é que estes santos estão todos a olhar para mim?", "Aquela saloia tem um écharpe igual ao meu, devia fulminá-la com os olhos, mas até que é gira, vou flirtar com ela".
O pai dirige-se orgulhoso, para o altar onde se encontra o futuro genro, com a sua menina pelo braço. Entrega simbolicamente (e institucionalmente também!!!) a sua filha ao noivo. A menina passa directamente da asa do pai para a asa do marido. O último nome da rapariga (que era o do pai) muda para o nome do marido. Simbolicamente diz tudo.
A parte gira do simbolismo: Gostei de saber, no casamento da minha prima, que o marido dela fizera questão de adquirir, também ele, o último nome dela (ou seja, do meu tio).
Eu posso não estar formalmente casada com uma pessoa e ainda assim sentir-me "em casa" quando me sinto a habitar no coração dela. Precisamos mesmo de alianças nos dedos para mostrar que se é propriedade e ao mesmo tempo que se detém alguém?
Eu não me quero casar, mas quero todos os privilégios que os casados têm.
Se os gays pedem direitos iguais, eu solteirissima, peço direitos iguais aos que estão casados. Também fujo aos meus impostos, tal como todos eles, a única diferença é que sou solteira. Faz algum sentido haver privilégios fiscais e sociais simplesmente porque eu jurei amor eterno a uma pessoa (quem mais jura mais mente)?

Breves armadilhas linguísticas:

casamento - "casa" é a raíz desta palavra (por ex. casado - uma pessoa que partilha a casa com outra). Esta associação de palavras não ocorre só em Português. Até em Turco a gracinha se repete: ev - casa; evde - casado.

matrimónio - "mater" (mãe) é a raíz etimológica que deu origem a esta palavra. Significa casamento, união formal de duas pessoas vinculadas por um suposto sentimento comum.

património - deriva de "pater" (pai). Significa a propriedade privada de um sujeito ou família (a própria mulher está incluída, já que também ela é considerada património do chefe de família).

Ainda se querem casar?

x-pressiongirl

14 comentários:

LR disse...

bem que gostaria de me alongar sobre o tema... houve um tempo em que subscreveria a 100% a tua tese. adiante.
os gays e as lésbiscas podem reclamar o direito ao casamento, desde que ele não seja visto como condição estrita de procriação que já foi, e sim como um contrato de património. nada contra. quem quer casar casa, quem não quer, não casa! nesse sentido faz todo o sentido que para a igreja católica apostólica romana o casamento gay seja uma impossiblidade.
já a aliança ou o anel pode ser um simbolismo como qualquer outro disso de o meu coração morar em alguém...
arrumado o casamento e o património, estou totalmente de acordo: o que fazemos nús é sexo. tão simples:)

Arquiduquesa de Grayskull disse...

O cúmulo do preconceito e já agora do policiamento de costumes é querer defender as pessoas do 'mau caminho' que é o casamento, esse gerador nato de desigualdade e que no seu entender deve ser abolido. No fundo é um argumento que não anda nada londe daqueles que defendem a abolição da nicotina, da marijuana, da colher de pau e do cinema violento e dos gays e que acabam a não perceber que as pessoas devem ter o direito a fazer o que bem entenderem desde que não prejudiquem ninguém com isso. Defender a abolição do casamento é tão intolerante quanto defender que um homosexual é um desestruturado social. Conheço casamentos extraordinários. Conheço casamentos infelizes ao extremo. Não conheço uma norma tachativa que me faça concluir que o casamento é fonte de desigualdade. Pode ser. Pode não ser. Tudo depende dos intervenientes. Homo ou hetero, todas as pessoas devem ter o direito a casar com quem entenderem.

DUCA disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
DUCA disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
DUCA disse...

Não creio que o casamento seja, por si só, uma instituição geradora de desigualdades. As desigualdades são, isso sim, promovidas pelos seres humanos.
Se vivemos numa sociedade heteronormativa e machista isso deve-se à Humanidade e não às instituições, apesar de estas serem por aquela criadas.
Salvo melhor opinião, parece-me que não obstante todo o peso social negativo que o casamento possa ter, ainda é a única forma que as pessoas têm de levarem avante um projecto de vida em comum ao nível económico, social, jurídico, familiar, etc.
Portanto, enquanto o casamento for a única forma que todas pessoas têm de acederem, sem qualquer discriminação, a benefícios fiscais, pensões de sobrevivência e viuvez, planos de saúde, dias de assistência à família, à facilitação de períodos de férias em conjunto com o cônjuge, etc. eu quero e exijo que as pessoas que amam pessoas do mesmo sexo, tenham o direito de se casarem, caso o desejem, como é óbvio.
Nada tenho contra a luta pela abolição do casamento que tem de facto uma carga negativa, para não dizer machista, em desarmonia com a evolução dos tempos.
No entanto, essa abolição deve ser acompanhada por formas de protecção de pessoas que vivam em conjunto e dos respectivos bens para que se evitem situações como a relatada no filme "If these walls could talk".
Como não tenho conhecimento da existência de quaisquer projectos neste sentido, a luta pela abolição do casamento parece-me extemporânea pois é “colocar a carroça à frente dos bois.”
Acresce ainda dizer que a União de Facto não garante os mesmos direitos que o Casamento, portanto, não serve de argumento como uma forma de protecção dos bens comuns de pessoas que vivam em conjunto.

Condessa X disse...

Eu bem a avisei para não se meter em temas "fracturantes". Só consegui perdoá-la depois de ver como o número de visitas aumentou. lol

M disse...

Es muy interesante tu planteamiento. Sin embargo, no vivimos en un mundo de ideales y como tal hemos de ajustarnos a la realidad. No creo que sea malo que los gays y lesbianas reclamen el derecho a poder casarse. Un vez que ese derecho se consiga en este pais cada cual es libre de hacer uso de tal derecho conforme a sus ideales. Gracias tambien por aclarar la intervencion de la chica italiana en el dia mundial contra la xenofobia. He de reconocer que no entendi su mensaje.

Mis mas sinceras disculpas por no ser capaz de escribir en Portugues.

x-pressiongirl disse...

Ai k tou desgraçada.
LR, é óbvio que os gays devem ter direito ao casamento, já que os heterossexuais também o têm. Ou seja, ninguém deve ser discriminado por ser homossexual (não fui eu que inventei, a maioria de nós sabe que isto já está na constituição). Da mesma forma, eu acho que ninguém deve ser discriminado por ser solteiro. Foi só isto que eu disse. O que acho um tanto contrasensual é o facto de os homossexuais pedirem casamento à igreja que nem os reconhece como individuos enquanto homossexuais, quanto mais reconhecer 2, como casal homossexual.
Sim arquiduquesa, as pessoas devem fazer o que quiserem e ninguém tem nada com isso. O que me incomoda é que as pessoas sejam levadas a casar afim de serem reconhecidas e premiadas por isso (beneficios fiscais, sao o exemplo mais flagrante). Não comprendi a relação que possa existir entre a abolição da nicotina da marijuana... ?
Não tenha dúvidas de que o casamento é, taXativamente, (aqui gostamos muito dos XX) uma fonte de desigualdade. E isso não é mau só para os solteiros. As mulheres casadas têm mais difuldade em encontrar emprego.

x-pressiongirl disse...

Duca, exactamente as desigualdades sao promovidas pelos seres humanos, seres esses que inventaram e que sustentam o casamento. "...enquanto o casamento for a única forma que todas pessoas têm de acederem, sem qualquer discriminação, a benefícios fiscais, pensões de sobrevivência e viuvez, planos de saúde, dias de assistência à família, à facilitação de períodos de férias em conjunto com o cônjuge, etc. eu quero e exijo que as pessoas que amam pessoas do mesmo sexo, tenham o direito de se casarem" É precisamente aqui que está o problema, eu quero ser solteira e conseguir visitar a pessoa de quem gosto no hospital (mas tenho de mostrar o bi e a aliança), quero ter os mesmos benefícios fiscais que os casados, dias para assistir uma pessoa de quem goste... se não existisse casamento o individuo sairia valorizado. Em termos globais suscrevo aquilo que dizes.
m, não te preocupes com a diferença inguística porque da mesma forma que me compreendeste também eu compreendo a tua escrita (não me atrevo a escrever em castelhano porque vai provocar risada). O mundo real sempre sofreu alterações/evoluções, fruto de muitas coisas que antes foram idealizadas. ;-)

saudações x-pressivas,

x-pressiongirl

mariana disse...

1. desde há muitos anos que a igreja católica tenta abolir a entrada da noiva com o pai na igreja. a diocese do porto já tem essa prática, com maior ou menor tolerância dos padres, com maior ou menor aceitação por parte dos nubentes (que normalmente querem a entrada à moda antiga).
actualmente, homem e mulher devem entrar na igreja juntos, de mãos dadas, porque ambos se vão entregar um ao outro no matrimónio.

2. eu quero ter o direito a casar. não por benefícios fiscais ou benefícios sociais. por benefícios espirituais, porque, queiramos ou não, o casamento é um vínculo mental que nos faz sentir mais unidos. com o casamento somos, para todos os efeitos, uma família.

3. já fui mais contra o casamento entre gays precisamente por não entender. agora, que encontrei o homem com quem vou casar, percebo perfeitamente. não quero imaginar a angústia que seria para mim amar alguém e ter que viver como solteira toda a vida ao lado dessa pessoa. não ser solteiro não tem nada de submissão ou falta de liberdade. é uma questão de entrega mútua, de assunção de uma nova condição social: não somos mais jovens dependentes dos pais, estamos vinculados a alguém, assumimos essa responsabilidade e damos a cara por uma família. tenha ela dois homens, duas mulheres ou um de cada.

mariana disse...

ps. esqueci-me de dois elementos:

alianças: conheço muita gente que vive em união de facto e as usa, como pessoas casadas que nunca as usaram. cada um anda com o que quer no corpo.

nomes: nenhuma das minhas avós, nascidas na década de 20 num portugal rural, profundamente religiosas e fieis ao matrimónio religioso, adoptou o nome do marido. creio que a adopção do nome do marido é um hábito mais visível no sul do que no norte - nem sempre o que parece mais machista é o menos matriarcal...

x-pressiongirl disse...

Muito obrigada pelos elaborados comentários mariana. De facto, não sabia que a Igreja queria abolir a entrada da noiva com o pai. Não disse que as pessoas casadas eram submissas ou tinham falta de liberdade. A liberdade que cada um se autoriza a si mesmo a ter está, sobretudo, dentro das suas próprias cabeças (de solteiros ou de casados). Obviamente eu não quero impedir os gays e se casarem, naturalmente, devem ter o direito a fazê-lo. Recordo-me de ter assinado uma petição nesse sentido. O que me faz confusão é o "casamento" enquanto forma de "legitimar" sentimentos. Sempre fui solteira, graças a deus, mas estranhamente às vezes sinto-me "casada". Por acaso eu sou natural do sul e desconhecia que fosse possivel não se adoptar o nome do marido nessa altura. Obrigada pelas informações. Abraço x-pressivo,

x-pressiongirl

Maestro disse...

Ups, acho que estou no blog errado... de qualquer maneira gostei. Em relação ao texto, não mudava uma palavra :)

x-pressiongirl disse...

Não, maestro, não entrou no blog errado. Felizmente também há homens feministas e esses são sempre bem vindos. ;-)
Obrigada pela retribuição da visita. Apreciei mesmo muito a melodia da sua escrita.
Abraço x-pressivo,

x-pressiongirl