sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Mulheres tipo L word fora do L word


O artigo pode ser lido, na íntegra, aqui.

No passado mês chegaram ao e-mail do sembikini dois pedidos muito similares que transcrevi neste post.
No primeiro apelo a jornalista afirmava estar a preparar-se para uma reportagem para a revista Sábado "com base em depoimentos sobre lésbicas femininas e requintadas ou mulheres que independentemente da sua orientação sexual já tiveram um envolvimento com alguém do mesmo sexo, preenchendo estes requisitos."

Ou seja, tinham de ser femininas e requintadas, serem lésbicas ou heterossexuais não era relevante, o que interessava era terem tido experiências homossexuais.

No segundo apelo, presumo que por parte da mesma jornalista, ela afirma estar a preparar um artigo "acerca da temática lésbica e bissexualidade" e procurar testemunhos de mulheres "lésbicas bonitas, femininas e requintadas (tipo as da série da Letra "L") ou mulheres que independentemente da sua orientação sexual já tenham tido experiências com alguém do mesmo sexo, preenchendo estes requisitos."

Novamente a tónica é colocada na feminilidade, beleza e requinte (tipo L word, segundo a própria jornalista). Nada a apontar, penso que toda a gente gosta de ver mulheres bonitas e requintadas.

Depreendi, ao avaliar os apelos, que o objectivo inicial era encontrar mulheres lésbicas e femininas dispostas a dar a cara e que na falta disso, a jornalista recorreria a mulheres de outra orientação sexual que já tivessem tido experiências homossexuais.



Enganei-me. Não era um artigo sobre lesbianismo ou bissexualidade mas sim um artigo sobre "brincadeiras homossexuais". Obviamente a mistura dos dois tipos de mulhers daria azo a equívocos e, consequentemente, a mais vendas.
"A Moda das aventuras sexuais entre mulheres" - eis o tema de capa de uma revista que qualquer homem faminto de mulheres se esforçará por não perder. O artigo fala, sobretudo, de relações casuais entre mulheres com a finalidade de estimular os maridos e os namorados. Acaso falaram da percentagem de mulheres que não regressam mais para os seus namorados? :-) Obviamente que não que isso seria deitar por terra o sonho masculino. Lavo as minhas mãos desse pecado porque acho de extremo mau gosto alguma mulher envolver-se com outra para excitar um homem e não para se excitarem uma à outra. Que raio de mulher se submete a tamanho "sacrifício" para agradar um homem?
Há, certamente, mulheres heterossexuais que têm aventuras com outras mulheres e não me incomodaria que fizessem uma reportagem sobre elas, mas não vendam isso como lésbico. Se a reportagem era sobre elas não tinham de procurar lésbicas para representar este papel.
Miguel Pinheiro, director da revista, apresenta sob o título "Aventuras" o artigo em causa dizendo ter sido muito difícil para a repórter conseguir convencer várias mulheres heterossexuais a partilhar as suas experiências. Acredito que sim, acredito que tenha sido tão difícil que Raquel Lito teve de ir à procura de lésbicas.
Ao longo do artigo percebe-se que há entre as entrevistadas heterossexuais uma tendência para se autorizarem a tais brincadeiras apenas sob o pretexto de se encontrarem menos sóbrias. Ou não há coragem de admitir que o alcóol é um pretexto ou há vergonha de admitir que sobriamente é aquilo que desejam.
Sabem, claro, que poucos maridos as autorizariam a fazê-lo sozinhas, como um deles confessa "É excitante ver a minha mulher com outra, mas há limites. Se ela estiver disposta a fazer sexo, terei de estar presente".
Eis o que me incomoda: o ainda haver mulheres que só se autorizam a estar com outras mediante a aprovação de um homem. O não se inibirem de entupir os poucos espaços, físicos ou virtuais, dirigidos a lésbicas, sob o pretexto de agradar a um homem. Essas não são mulheres, não são heterossexuais nem tão pouco lésbicas. Apenas meros objectos. Feministizem-se!

x-pressiongirl

P.S. - Não sei como é que descobriram que 55,3% das audiências da série Letra L são masculinas. Penso que a generalidade de filmes com cenas entre mulheres estão concebidos, como diz a sexóloga Vânia Beliz, "para o imaginário erótico masculino". Não creio ser o caso de L word, mas acredito que seja o caso de Second Life e, seguramente, o deste artigo da revista Sábado: Perfeitamente concebido para o imaginário erótico masculino.

4 comentários:

Night Shadow disse...

Muito bom texto. Também li esse artigo e pareceu-me ridículo misturarem homossexualidade com brincadeiras homossexuais de mulheres heterossexuais. Só provoca mais confusões num tema que não tem sido aceite com muita facilidade. Espero que a atitude genuína deste blog continue.

Anónimo disse...

subscrevo (mas o nome do director é miguel e não manuel)

brisadomar disse...

Um dia a sociedade tirará todas as conclusões (ou pelo menos as suficientes ) do facto de a esmagadora maioria dos directores de publicações serem homens. O enviesamento que tal favorece leva ao que levou a nossa comunicação social: ao estado de perfeita caricatura da sua função.

Passei uns anos a falar na Internet com objectos como o que são referidos neste post. Se a minha experiência tivesse alguma relevância estatística, eu diria que tais coisas representam 80% das mulheres com nick que se passeiam pelas rubricas «ela procura ela». 80% é muito por cento. Muito objecto... mas por alguma coisa estamos numa sociedade de consumo massificado :-)

Parabéns pelo vosso notável espaço de comunicação!

x-pressiongirl disse...

Night Shadow, muito obrigada pela simpática mensagem. Ainda que o número possa não ser assim tão grande, não vejo mal em fazer-se um artigo sobre elas. O que considerei um tanto contraproducente foi mesmo o facto de se misturar as duas coisas.
Anonimo, muito obrigada pela observação. Tratarei de corrigir o lapso. Obrigada.
brisadomar, o facto de termos homens a dirigir a generalidade de revistas, empresas não tem de ser propriamente mau, mas concordo com a sua observação.
E sim, a internet, enquanto espaço de comunicação favorece tanto os encontros como os desencontros. 80% não é pouco e a meu ver isso revela que há poucos espaços físicos para esse tipo de encontros. Obrigada pela simpatia e espero que a visita a este espaço virtual lhe seja sempre agradável. ;-)