Acaba de entrar num espaço lesbo-feminista (de raíz). Se não fôr, pelo menos, uma das duas, entrou no blog errado. Somos abolicionistas da prostituição e recentemente começámos a ser chamadas de TERF. Em breve um post explicando o porquê.
Não estão a reconhecê-la? De facto, há muito tempo que não se ouve falar desta rapariga, pelo menos aqui em Portugal onde as boas notícias nem sempre chegam depressa. Esta ragazza de Milão reapareceu há cerca de 2 anos com este single "Faraway". Em finais dos anos 90, as suas músicas fizeram tremendo sucesso por cá. Destas vocês recordam-se, hein?
Quem não se lembra dos mega-sucessos Come into my life, Let a boy cry ou Freed from desire? Com apenas 32 anos, Gala tem uma legião de fãs espalhad@s pelos quatro cantos de uma terra arredondada. As suas letras são deveras sugestivas para as lésbicas atentas, mas não são só as letras, já que também os seus vídeos exploram bastante a questão dos papéis, do queer e, consequentemente, da sexualidade, ou melhor, das diversas sexualidades. Chego ao ponto em que me apetece transcrever algumas das suas letras. "Everyone has inside" (esta é dedicada às amigas que não gostam de pagar entrada nas discotecas) "Ex-excuse me We are two Ye-yeah, uh, me and my girlfriend " Só consegui achar este remix, mas se tiveram acesso à versão original poderão acompanhar a letra que é hilariante.
"Summer eclipse" (com Gipsy kings) "we try to avoid each other's eyes they say our hands should never touch rules of love that kill so much I'll wait for you, if this can't be we'll meet again in a dream"
"Let a boy cry" "They made you change, do you remember when you were someone else Soldiers and dolls won't give away my childhood dreams I was a pirate, I conquered, and I sailed free And they say silver, I choose gold I've never done as I've been told" e mais adiante "Someone will judge her crazy soul Let the girl fight and she will know"
As novas músicas também têm letras muito interessantes que poderão consultar aqui. De destacar uma musiquinha com a participação dos Balkan Beat Box, que estiveram entre nós na semana passada, no Festival Med, em Loulé.
Gala é muito reservada relativamente à sua vida pessoal e por isso ainda ganha mais pontos porque parece querer ser apreciada pelo seu trabalho e não pela sua conduta. Nos tempos que correm é uma raridade haver artistas que não se vendam ao "rosa-choque" da imprensa medíocre que reina no paraíso dos ignorantes. Nunca em lado algum li ou vi Gala assumir-se como homo ou bissexual. A Pink TV é o primeiro canal de temática gay da televisão francesa e já terá cerca de 4 anos. A Pink TV pregou-lhe uma partidinha de gosto duvidoso. É um bocado sacana tentar sacar informações pessoais desta forma:
Ah, quem tiver dificuldades com a língua francesa (os franceses têm a mania de dobrar a voz dos estrangeiros) pode avisar que a Condessa certamente disponibilizará a sua intérprete pessoal.
Mais informações sobre Gala Rizzatto:
http://www.galasound.com/ - site oficial
http://www.myspace.com/galamusic
http://galarizzatto.com/ - site criado por fãs brasileiras
Há muitos bons artistas em Portugal. Alguns cultivam a arte de saber escolher com quem dormir, outros educam-se e aprendem a ser auto-didactas, outros formam-se em escolas que na maior parte das vezes pouco mais têm para lhes oferecer que um diploma. Focar-me-ei neste terceiro grupo. Ser artista num país que subestima a cultura de forma grosseira é obra, sobretudo, se tivermos em conta que os artistas tendem a ser mais facilmente reconhecidos não pela sua obra propriamente dita mas pelo sobrenome com o qual assinam os recibos verdes (pessoal do FERVE - Fartos d'Estes Recibos Verdes e outros movimentos de denúncia e acção como os Precários Inflexíveís têm chamado a atenção para isto), pelo corpo que ostentam ou pelos contactos que têm no pequeno mundinho das artes. É assim em todos os "submundos" da sociedade portuguesa, um pouco por todas as classes profissionais, a começar pelo "submundo escolar e académico". A escola formata porque a sua função primeira é educar para a obediência, a subserviência, o não questionamento das normas ou hierarquias existentes (a parvoice das praxes é o exemplo mais flagrante, com a agravante de ser praticada entre pares - o M.A.T.A - Movimento Anti-Tradição Académica tem questionado isto de forma implacável). O processo de Bolonha não veio contribuir em nada para colmatar falhas deste âmbito, o individuo que se queira integrar deve acarretar as normas se quiser ser bem sucedido no sistema. Os artistas são aqueles que têm voz e matéria para colocar (ainda que subtilmente) a arte ao serviço de causas. Mas os artistas, que grosso modo não podem trabalhar por carolice, precisam de financiamento. E como obtê-lo quando aquilo que a obra revela questiona de forma incomodativa os que atribuem subsídios e apoios? O que se entende por censura e de que formas subtís ela se manifesta?
Nosotros - na Cinemateca, dia 23, às 21:30 (conservem o bilhete porque depois do filme há festa no Cabaret Maxime, com música a cargo de Mister Lizard e DJ Nuno Lopes, também actor).
Nosotros é o título do mais recente filme produzido por alunos finalistas da Escola Superior de Teatro e Cinema e assinado pelo professor Luís Fonseca. É um melodrama multiplot em que três histórias nucleares se cruzam, fazendo jus ao tema "encontros/desencontros". Não se tratando de um filme LGBT, despertou-me particular atenção o facto de abordar o tema da bissexualidade. Formam o triângulo: uma rapariga, o namorado dela e um rapaz espanhol a quem ela aluga um quarto de sua casa. O espanhol e o namorado acabarão por se envolver sentimentalmente e isso virá a encerrar um ciclo na vida de todos eles.
A Dama, O Leão e o Unicórnio
A partir de "colagens" de textos de Jean Genet, Rui Neto aventurou-se num solo (o tema da solidão é o compasso) a que chamou de "esboço". Diria mais que um esboço, um delicioso delírio. Incorporando as várias personagens que o habitam, Rui Neto explora o queer e fá-lo de forma genial, perturbante e até incómoda. O público é constantemente provocado, sente nojo, sente pena, sente. A parte visível do trabalho, a realização plástica, a cargo de Sofia Ferreira é também de uma genialidade impressionante. A quem é que lembra um manto multi-usos ou um chapéu daqueles?
Mais dinheiro houvesse e mais genialidade surgiria, mais cultura existisse e melhor reconhecidos seriam os seus agentes. A reflexão é amiga da revolução. É por isso que a reflexão é silenciada e a revolução não será televisionada.
Não há revolução sem que haja uma revolução sexual. - relembra Gudrun em Raspberry Reich.
A propósito deixo aqui dois presentinhos:
x-pressiongirl
P.S. - Especial agradecimento a João Pinto, um dos responsáveis pelo guarda-roupa, por me ter concedido uma mini-entrevista e pela forma cortês como respondeu às minhas insistentes perguntas sobre o filme Nosotros.